Cartas de Pokémon – a nova febre dos (muito) pequenos

cartas de pokemon
Photo credit: stupidmommy via Visualhunt / CC BY-NC

É cíclico. Não importa o nome – figurinhas, gogo’s, cards ou cartas – o fato é que eles invadem as casas das crianças de uma hora para outra. A metáfora de “febre” para categorizar uma onda de colecionáveis não é à toa. É intenso e é sintomático de uma sociedade “doente’, sim. Por excessos. A onda do momento são as cartas de Pokemon – e essa febre tem chegado às crianças cada vez mais cedo.

Segunda-feira, hora de ir para a escola. As crianças na faixa de 5, 6 anos, tão pequeninas, se equilibram entre mochila, lancheira, suas latas ou pastas de Pokémon (enormes). A hierarquia de valor da coleção é o que guia as trocas entre eles. Mas como fazer uma criança de pré-escola entender o valor dessas pontuações? A diversidade é imensa: cartas “X”, com brilho, sem brilho, com pontuações diferenciadas, com funções distintas, de personagens relevantes ou não.

Há toda uma sofisticação nessa coleção Pokémon que deve ser realmente fascinante para as crianças de 9, 10 anos. Mas na faixa etária que estamos falando – 5, 6 anos – o desenvolvimento se dá em degraus. As diferenças entre as crianças, nessa fase, podem ser muito grandes – tanto no desenvolvimento cognitivo quanto em termos de maturidade. Assim, é normal ver crianças de cinco anos que já escrevem. Enquanto isso, outras de seis estão penando para ler. Nessa idade, tem criança que ainda usa fralda à noite. Por outro lado, tem criança que já dorme na casa de amigos. Pode haver um abismo de maturidade entre crianças da mesma idade. Como então garantir que todos estejam no mesmo nível para que façam trocas equânimes e justas?

Entendo que é complicado exigir que a escola supervisione tudo. São muitas trocas, doações e negociações entre eles. Mas o fato é que a coisa foge do controle muitas vezes.

Alguns exemplos de situações ocorridas recentemente com cartas de Pokemon:

Situação 1: numa sexta-feira um menino de seis anos leva a sua coleção inteira (mais de cem cartas) para a escola. Perde todas. A mãe aciona as outras mães pelo grupo do whatsapp, na esperança de ter ido na mochila de outra criança. As mães se solidarizam pela perda, procuram, mas não acham. Na segunda-feira, a coleção é encontrada na escola (ufa!). Imagine a angústia dessa criança pequena durante dois dias inteiros, acreditando que poderia nunca mais ver toda a sua coleção.

Situação 2: mães de crianças de cinco, seis anos desesperadas para comprar “boxes”, latas metálicas com cartas Pokémon na faixa de R$60 reais. Veja nesse link como essa coleção coloca um padrão de consumo altíssimo, mesmo para famílias de classe mais alta, e a meu ver injustificável. Principalmente em crianças tão pequenas.

Situação 3: Uma menina de seis anos foi trocar uma carta especial, a famigerada carta “X”. Recebeu do amigo uma carta toda desgastada, aberta pelo meio e lavada. Apesar de estranhar o estado da carta, convenceu-se com o argumento do amigo, de que aquela era uma carta muito mais rara. A coleção da menina era compartilhada com o irmão mais velho, que ficou bastante chateado com a troca. O irmão quis a carta especial de volta. Mas a carta estragada fora jogada no lixo…

Como fazer a destroca, então? Essa situação particular foi resolvida graças à interferência da professora, que acabou sabendo da situação quase que por acaso. Ela chamou as crianças envolvidas e depois juntou a sala. As duas crianças tiveram a oportunidade de contar a história do seu ponto de vista. A classe escolheu por votação como o impasse deveria ser resolvido. Além disso, a professora aproveitou para normatizar a troca das cartas. As trocas só passariam a acontecer dentro de sala de aula, em determinados dias e horários preestabelecidos, onde pudesse ocorrer com a sua supervisão. As crianças foram responsáveis por elaborar as regras de troca, como por exemplo só trocar cartas em bom estado de conservação, cartas com pesos equivalentes, não aceitar cartas falsas…Nesse dia também as crianças que entendiam mais ensinaram àquelas que não tinham muita noção sobre a hierarquia de valores das cartas.

Essa última situação teve um final enriquecedor para toda a turma. Mas precisou haver o conhecimento, a vontade e a competência da professora em atuar na questão. A maioria dos casos nem chega ao conhecimento dos professores e nem sempre é passível de solução – como no caso da criança que perde as cartas.

 

Algumas perguntas

Por favor, entenda que não sou contra uma criança ter coleções. Mas ao observar todas essas coisas acontecendo com as crianças pequenas, eu fico me perguntando. Será que nossos filhos de cinco ou seis anos estão preparados para coleções e trocas tão complexas? As cartas de Pokemon exigem uma sofisticação que – eu confesso – nem eu mesma, uma adulta, consigo entender.

E continuo a me perguntar. Não deveria ser função da escola avaliar o quanto essa brincadeira é adequada a essa faixa etária? Não seria o caso de proibir as crianças de levarem esse tipo de brinquedo para a escola? Ou talvez criar regras específicas para os pequenos, como a que ocorreu no caso acima? Afinal, já existem restrições em algumas escolas, como por exemplo não levar brinquedos eletrônicos.

Acredito que essa seja uma conversa que as famílias e as escolas deveriam ter em conjunto, considerando o grau de desenvolvimento cognitivo e emocional desses pequenos. Vamos conversar sobre Pokémon na pré-escola?

 

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