Como criamos meninas e meninos

Photo credit: Wurzeltod via Visual Hunt / CC BY-NC

Todo o movimento que tem sacudido as discussões em redes sociais recentemente sobre o papel da mulher dentro da sociedade nos faz pensar na forma como estamos tratando essa questão com nossas crianças, meninas e meninos.

A ideia de que uma mulher de valor é aquela bonita, que “se dá ao respeito” e que fica à disposição do marido e da família já é bastante ultrapassada.  Assim como não deveria existir espaço para a ideia de que homem não chora,  tem que sustentar a família, não participa dos cuidados da casa e dos filhos porque isso é papel da mulher, homem não sabe cuidar de um bebê porque não é da natureza dele.

Nada contra quem faz essas escolhas, se são o que melhor funciona para cada um e cada família, porque cada um tem o direito de ser o que é, mas convenhamos que hoje não existe mais espaço pra a celebração de um comportamento em detrimento de outros.

Essa polêmica toda faz a gente trazer o assunto pra dentro de casa. Será que alguma atitude que temos com nossas filhas – e nossos filhos – podem estar reforçando esses estereótipos? Será que, sem nos darmos conta, estamos reproduzindo verdades que estão circulando há décadas e que acabam cerceando a individualidade das nossas crianças, e criando nelas comportamentos machistas?

Meninas e meninos: estereótipos

Desde que engravidei, quando ia comprar as roupas para a bebê, ficava desesperada com a falta de ofertas de roupas não-rosa e não-lilás para meninas. No fim acabei ignorando essa separação de gênero (afinal, roupa de bebê não tem necessidade de caimento, certo?) e consegui uma diversidade de cores no guarda-roupa dela. Mas confesso que só encontrava roupa azul e verde com aviões e dinossauros bordados. Que cansativo!

O que eu quero dizer com isso é que a indústria embarca nessa onda (pra não dizer que ela CRIA isso), e ficamos um círculo vicioso. Panelinhas: maioria só tem cor de rosa. Outros brinquedos miniatura (ferro de passar, vassourinha), tudo cor de rosa. Bonecas do tipo bebezinho, todas meninas. Raríssimo encontrar um bebê menino ou pelo menos meio neutro, pra fazer tentativas.

Peraí, por que isso? Por que existe divisão de seções nas lojas de brinquedo? Por que os brinquedos “de menino” tem uma cara mais agressiva? Por que não fazem um fogãozinho que pareça atraente para um menino, sem borboletinhas? Claro, se cor-de-rosa não fosse a cor batida e rebatida como feminina, talvez um brinquedo dessa cor não afugentasse um garoto…

História e Biologia explicam

Nem sempre o rosa foi cor “de menina”. Um artigo da revista Mundo Estranho conta:

“Até o fim do século 19, tintura de tecido era cara, então os pais não se preocupavam com isso. A definição das cores “certas” para cada gênero surgiu só no início do século 20. E era o inverso da atual! Um catálogo de roupas dos EUA de 1918 dizia que o rosa, por ser mais forte, era adequado aos garotos. E o azul, por ser delicado, às garotas! Foi só entre 1920 e 1950 que as lojas começaram a sugerir azul para eles e rosa para elas, como forma de agitar as vendas. Essa imposição social tem sido reforçada desde então.

Sobre a escolha dos brinquedos, um artigo do Disney Babble traz a seguinte informação:

“Em 2010, uma pesquisa feita pela Universidade de Cambridge com bebês de 1 ano mostrou que quase a mesma quantidade de meninos e meninas indicava preferência por bonecas. A partir dos 2 anos, os garotos passavam a se interessar mais por carrinhos. Ao final, o estudo concluiu que o gosto por brinquedos é adquirido socialmente, ou seja, não é algo inato.”

Isto posto, volto à pergunta: estamos tendo atitudes que reproduzem conceitos machistas, sem perceber? A escolha dos brinquedos é uma delas.

 

Pra ajudar a refletir, uma listinha bem rápida:

MENINA
  • Ela quis brincar de super heroi, mas disseram pra ela que é coisa de menino, ou riram. Ou nunca mostraram nenhum conteúdo de super heroi.
  • Ela quis entrar na aula de futebol, mas a escola não tem essa possibilidade. Só turmas masculinas. O pai, ou tio, ou irmão, adora futebol, mas nunca convidou ela pra ir ao estádio ou ver um jogo na TV, ou nunca jogou com ela.
  • A grande maioria das roupas dela é cor de rosa ou lilás desde que nasceu
  • Ela tem muitas roupas delicadas, que estragam fácil, e por isso é melhor ela se cuidar pra não se sujar.
  • Ela queria subir mais alto, mas disseram que é muito delicada, vai se machucar. Não deixaram. Mas o irmão mais novo pôde.
  • Não tem nenhum carrinho de brinquedo. Nem trem. Nem avião.
  • A maioria dos brinquedos é cor de rosa.
  • Nem 10% dos brinquedos que ela ganha são de montar, de desmontar, de pesquisar, de inventar.
  • Tem livros do tipo “Cupcakes para meninas” mas não tem nenhum sobre ciências, mágica, História, esportes.
  • Ela é requisitada a ajudar nas tarefas domesticas, mas o irmão não.

 

MENINO
  • Ele quis brincar de boneca/ cozinhar/ casinha/ papai e filhinho, e riram dele, e por isso ele não quis mais.
  • Ele nunca teve um boneco ou boneca do tipo bebezinho.
  • Alguém já disse pra ele parar de chorar porque homem não chora
  • Ele até que gosta de futebol, mas às vezes preferia ficar em casa ao invés de ir ao estádio, mas não deixam.
  • Ele quis fazer aulas de dança, mas a escola só oferece turmas femininas. Ou não deixaram porque aula de dança é coisa de menina.
  • Ele nunca viu um espetáculo de dança.
  • Ele adora ficar mais quieto, lendo, mas acham que tem algo errado, porque menino deveria ter muita energia!
  • Um colega foi brigar com ele na escola, mas ele não revidou e preferiu chamar um adulto ou sair. Foi questionado, disseram que ele deveria bater de volta.
  • Ele não é requisitado a ajudar nas tarefas domesticas, já que é menino.
  • Riram dele porque ele gosta mais de brincar com meninas que com meninos.

 

Se alguma dessas atitudes frequentou a sua casa, é normal, pois foi assim que a maioria de nós foi criada e é comum reproduzirmos esse pensamento. Mas de lá pra cá o mundo já mudou bastante, a gente cresceu e como mães precisamos fazer algumas reflexões. E a partir disso identificar e deixar de reproduzir comportamentos que reforçam esses estereótipos e limitam o potencial das crianças.

A menina pode ser recatada e do lar se no fim isso for uma escolha dela, assim como o menino poderá ter a opção de ser mais sensível se for a essência dele. Mas a grande questão é tratar meninas e meninos de maneira equivalente, oferecendo as mesmas oportunidades, para que nossos filhos possam fazer as suas próprias escolhas.

 

Veja também:

O Que A Sua Filha Vai Ser Quando Crescer?

“Seja homem” e outras coisas que dizemos aos nossos meninos

(30 Posts)

2 thoughts on “Como criamos meninas e meninos

  1. Célia Sá

    Muito adequado o conteúdo porque é em casa, nos primeiros contatos com o outro, que as crenças e imagens vão se formando e determinando quem será essa pessoinha no futuro. Forçamos que as crianças entre na caixa muito cedo!
    Parabéns mais uma vez!

    Reply
    1. Thelma Post author

      Obrigada, Celia! São reflexões como essas que temos vivido. Vamos conversar muito sobre essas questões no blog e nos nossos outros canais. Um beijo!

      Reply

Deixe seu comentário

Your email address will not be published. Required fields are marked *