Consumismo infantil: porque você deveria se preocupar com isso

Photo credit: classic_film via Visualhunt / CC BY-NC

Hoje, 15 de outubro, é Dia do Consumo Consciente, data instituída para estimular a reflexão sobre nossos hábitos de consumo. E um dos hábitos de consumo que mais crescem no mundo é o consumo infantil.

Você sabe o que é consumismo infantil e quais as consequências para a infância?

Eu acabei de ler um livro muito provocador sobre o assunto, o Nascidos Para Comprar, de Juliet Schor. Além de pesquisar o tema por mais de vinte anos ela entrevistou muitas pessoas que definem as estratégias de mercado para o público infantil. O que eles declaram é assustador. Apesar de retratar apenas a realidade norte-americana, encontramos muitas semelhanças com o Brasil. Os números que menciono a seguir são todos retirados do livro dela.

 

Mas afinal, o que é consumismo infantil?

O consumo dirigido ao público infantil existe desde o século XVIII. Mas tem adquirido proporções gigantescas nas últimas décadas. Nos EUA cresceu 400% de 1989 a 2002.

Quando a sociedade emerge numa cultura do consumo e entra num estado extremo chamamos a isso de consumismo. As crianças hoje em dia consomem muito mais que antigamente. Mais que isso, elas também exercem uma alta influência nas compras dos adultos. Se você acha que é exagero, saiba que a própria indústria automobilística estima que 67% das compras de carro são influenciadas pelas crianças.

As crianças reconhecem logotipos desde os 18 meses de idade. Antes do segundo ano já solicitam os produtos nomeando as marcas. Segundo uma pesquisa recente as crianças passam mais tempo fazendo compras (52%) do que qualquer outra atividade, como brincando ao ar livre (17%), por exemplo.

 

Um combo indigesto

Mas o consumismo nunca vem sozinho. Ele é acompanhado por todo um estilo de vida que gira em torno do consumo, que o estimula e o justifica.

Assim, famílias muito voltadas para o consumo costumam ter um menor contato com a natureza, pois passam boa parte do seu tempo livre em shoppings. Elas também possuem hábitos alimentares menos saudáveis, pois dão preferência a junk food. Por fim, exercitam-se menos, pois estão sempre conectadas nos eletrônicos, TV e videogames.

É um pacote; o excesso de consumo nunca vem sozinho – ele cria esses hábitos. Esses hábitos, por sua vez, reforçam o consumismo.

 

Doentes como gente grande

Olhando o consumismo infantil como um “combo”, uma combinação de um cardápio muito maior, fica fácil entender porque as crianças estão cada vez mais doentes. Doenças inclusive até recentemente consideradas “de adulto”, como colesterol alto e diabetes tipo 2, hoje são comuns nos consultórios pediátricos.

As crianças brasileiras estão cada vez mais obesas. Segundo o IBGE, os casos de obesidade cresceram 4 vezes entre crianças de 5 a 9 anos em 20 anos, o que pode ser considerado pelos especialistas uma epidemia. Junto com a obesidade vem o aumento nos casos de diabetes tipo II e colesterol alto, que afetarão a saúde dessa criança por toda a vida.

Os casos de depressão infantil, até então considerados raros, estão crescendo. Só no Brasil são oito milhões de crianças diagnosticadas. Até mesmo os distúrbios alimentares, como anorexia e bulimia, mais presente em adolescentes, cresceram absurdamente entre as crianças.

Aqui no Brasil, além disso tudo, vemos a relação do consumismo com o aumento da violência. As crianças em situação de risco são cooptadas pelo crime para ter o “tênis da moda” e ganhar o respeito dos colegas.

 

De quem é a responsabilidade?

Pesquisas identificaram que os pais que mais gastam com os filhos são os que passam menos tempo com eles. Isso é chamado pelos especialistas de “dinheiro da culpa”. Essa situação é usada na publicidade para convencer as crianças a pedirem seus produtos com insistência. Quem aqui não se lembra dos comerciais do “Compre Batom” ou ” Eu quero a minha Caloi”?

Você pode acreditar que para neutralizar os efeitos da indústria basta negar o pedido de uma criança. Se você faz isso com o seu filho, parabéns. Mas saiba que você é uma exceção. Apenas 13% dos pais declaram não atender aos insistentes pedidos das crianças.

Mesmo esse pequeno grupo não está imune aos efeitos do consumismo infantil, pois os apelos hoje em dia são muito mais complexos. As marcas hoje não vendem simplesmente um produto, como nas propagandas antigas. Elas vendem valores e estilos de vida. Para isso, apelam para necessidades psicológicas da criança, como aceitação, carinho e proteção. E isso mexe com o seu filho, quer você compre ou não. Se ele pediu um produto é porque foi impactado por ele. De maneira acumulada e ao longo do tempo isso afeta a autoestima das crianças. Elas passam a acreditar que para serem aceitas, estimadas e respeitadas precisam usar ou ter determinado produto. Numa pesquisa com crianças entre 9 e 14 anos, mais de 50% delas admite que “quando você cresce, quanto mais dinheiro possui, mais feliz você é”.

E não é fácil livrar as crianças desse tipo de estímulo, pois o apelo ao consumo está em toda parte: nas TVs, nos jogos eletrônicos, nas redes sociais, nas ruas e até nas escolas.

Por isso, da próxima vez que você ouvir falar em consumismo infantil, lembre que ele está ajudando a deixar nossos filhos mais doentes – do corpo e da mente. E lembre-se que somos todos – família, escola, governos e sociedade – todos responsáveis.

 

O que eu, como mãe, posso fazer?

      • Não permitir TV ou computador no quarto das crianças
      • Limitar o tempo de uso de eletrônicos
      • Criar momentos em família ao ar livre e em contato com a natureza
      • Estimular a leitura nas crianças, para que reflitam sobre os estímulos que receberão da mídia
      • Limitar a quantidade de presentes e brinquedos dados às crianças
      • Estimular a participação das crianças na doação de brinquedos e roupas usadas
      • Provocar pequenos momentos de interação em família, como ler, jogar, cozinhar…
      • Refletir junto com seus filhos sobre as consequências do excesso de consumo na sustentabilidade do planeta. Dê exemplos simples: um monte de garrafa pet no mar mata os peixes, por exemplo

 

Se quiser saber mais:

A REBRINC – Rede Brasileira Infância e Consumo – é uma organização sem fins lucrativos destinada a promover uma reflexão da infância com menos consumismo infantil. O Guia Para Mães Incríveis tem orgulho de fazer parte da REBRINC. Acompanhe o trabalho deles aqui ou na página do Facebook.

 

 

Veja também:

(40 Posts)

Deixe seu comentário

Your email address will not be published. Required fields are marked *