Crianças Bilíngües – benefícios de um segundo idioma

Crianças Bilíngües
Photo credit: layma1999 via Visual hunt / CC BY

Tempo de Olimpíadas, centenas de turistas no Rio de Janeiro. Entro no metrô e vejo uma linda família. Não resisto a prestar atenção neles até que me espanto. A mãe fala francês com as meninas (gêmeas) de cerca de 4 anos. Elas respondem em italiano. Bem intrometida, pergunto pra mãe “como é que pode”? Ela explica que ela é francesa e o pai das garotinhas é italiano. Em casa, sempre se comunicaram com a criança cada um em sua língua mãe. E assim elas se tornaram crianças bilíngües. É tão lindinho uma criança falando em outra língua! Falando duas então, morri de fofura…

Aqui em casa somos todos brasileiros, mesmo. Mas a particularidade de mãe gaúcha, pai baiano, crianças cariocas não passa em branco. Meus colegas adultos não conseguem reproduzir palavras como “três” e “porta” com um sotaque gaúcho sem parecer atores de novela fingindo que nasceram na minha terra. Minhas meninas, por outro lado, se passariam por pequenas gauchinhas com quase nenhum esforço. Como pode?

Fui dar uma pesquisada, e descobri uma matéria da revista portuguesa Sábado, que relatou uma pesquisa curiosa. O estudo media a atividade cerebral de bebês bem novinhos, à medida que os expunha a diferentes idiomas. Quando os bebês são expostos a sons falados de línguas estrangeiras, o gráfico regista um pico característico, sinal de que o cérebro detecta o som do idioma estranho. Esta capacidade extraordinária acaba por se perder por volta de 1 ano. O cérebro do bebé dá essa resposta, mesmo de forma inconsciente”. Um outro estudo, de Harvard, relatado na mesma matéria verificou que bebês conseguem distinguir os sotaques da sua língua de origem logo nas primeiras semanas. Aqueles cujos pais falavam inglês com sotaque de Boston olhavam mais fixamente e sorriam mais para estranhos com o mesmo tipo de linguagem. Se a pessoa falasse com outro sotaque, a reação era de maior desinteresse”.

Preparação para o futuro x tecnologia

Comprovada a altíssima percepção (e capacidade) das crianças em relação à linguagem. Mas será que, além de ser a coisa mais fofa ver um pequeno falando dois idiomas, existem outros benefícios no bilinguismo?

O mais óbvio é a chamada preparação para o “mercado de trabalho”. Muitos pais se preocupam em deixar seus filhos em “vantagem competitiva”. Fora o fato de que nossos filhos não se vejam em situações difíceis pela incapacidade de se comunicar (em viagens, por exemplo).

Por esse lado, a tecnologia tem ajudado imensamente. O Google Translator é um aplicativo gratuito que escuta uma frase em idioma e traduz para outro imediatamente. Ele até traduz textos impressos! Basta apontar a câmera e, voilá, uma placa escrita em alemão vira uma placa em português. O Skype é capaz de traduzir conversas mantidas entre interlocutores com idiomas diferentes (saiba mais aqui). Mais uma: um equipamento portátil chamado SIGMO é capaz de ouvir uma frase e replicá-la, traduzida para outro idioma. E consegue fazer isso com cerca de trinta idiomas, alguns dos quais com variações de dialetos. Dito isso, esse benefício do “conhecimento” se torna até frágil, certo?

Crianças bilíngües e desenvolvimento

Ainda bem que não se trata só disso. Existem diversas pesquisas que apresentam outras vantagens. Segundo essa matéria da Revista Galileu, “Novas pesquisas sugerem que falar duas línguas pode ter efeito profundo no modo como pensamos. O aprimoramento cognitivo é apenas o primeiro passo. Memórias, valores, até a personalidade podem mudar, dependendo da língua que estou falando. É quase como se o cérebro bilíngue abrigasse duas mentes independentes.”. Alguns dados:

  • Flexibilidade mental: crianças bilíngues passam por melhorias no chamado “sistema executivo” do cérebro, um conjunto de habilidades mentais que dá capacidade de bloquear informações irrelevantes. A característica também os ajuda a passar de uma tarefa para outra sem ficar confuso. O sistema executivo é fundamental para praticamente tudo que fazemos, da leitura à matemática e até dirigir carros. Logo, melhorias nesse aspecto resultam em maior flexibilidade mental.
  • Empatia: outro estudo (da Universidade de Princeton) aponta que o bilngüismo  pode melhorar as habilidades sociais. Indivíduos bilíngues são mais capazes de se imaginar no lugar dos outros, pois têm mais facilidade de bloquear informações que já conhecem e se concentrar no ponto de vista alheio.
  • Retardo no envelhecimento: vários estudos apontam que bilíngües demoram mais para desenvolver doenças da velhice, como demência e Alzheimer
  • Foco: esta matéria destaca que uma “criança com boa proficiência em duas línguas, em geral, intensifica o que os especialistas chamam de controle inibitório ou seleção de atenção. Isso é uma habilidade que utilizamos quando temos vários estímulos para prestar a atenção e precisamos nos focar em apenas um deles. O controle inibitório, como o próprio nome diz, inibe a atenção aos estímulos menos importantes.”

Encontrei ainda várias referências a melhor capacidade de aprendizado, melhor raciocínio lógico-matemático e efeitos positivos nas habilidades sociais das crianças bilíngues. Não é pouca coisa.

Quando começar?

Parece que quanto mais cedo, melhor. É na infância que o cérebro está em desenvolvimento acelerado. Nesta matéria a psicóloga Daniela Moura explica que “A inserção de estímulos ambientais nessa fase amplia as conexões neuronais, facilitando o aprendizado”. Quando uma criança está na fase de desenvolvimento da fala, ela é capaz de perceber a diferença entre os sons. Para adultos orientais, segundo a matéria da Sábado, o som o ‘R’ e do ‘L’ parecem a mesma coisa. O cérebro desenvolve conexões diferentes se aprendemos um idioma ou outro. Se deixamos isso ativado, não perdemos a capacidade de distinguir as diferenças de sonoridade. Fica mais fácil aprender mais idiomas mais tarde.

Por outro lado, vale lembrar que alguns estudos mostram que o ensino simultâneo de dois idiomas pode reduzir o vocabulário em cada um deles nessa fase. Isso não seria motivo de preocupação, já que posteriormente isso acaba se regularizando nas crianças bilíngües.

Como os pais podem estimular o interesse e aprendizado de outro idioma?

Tem muitas formas, e cada uma delas tem efeitos diferentes.

  • Uma criança vivendo em outro país vai ter uma compreensão bem ampla do novo idioma, complementada pela vivência cultural.
  • Viajar para terras estrangeiras nas férias já é um experiência e tanto. Neste caso, pode-se apresentar o básico do idioma local (bom dia, obrigado, com licença, etc.).
  • Pais com nacionalidades diferentes, como a família do início do texto, dão naturalidade à convivência de múltiplos idiomas.
  • Se um dos pais fala outra língua, pode fazer brincadeiras divertidas em outra língua. Se tiver muito empenho ou for natural para o pai ou a mãe, pode-se começar a conversar em outra língua desde que a criança nasce.
  • A convivência com estrangeiros pode estimular a curiosidade das crianças pela língua. Os pais podem promover com o amigo ou parente gringo uma sessão experimental com foco no idioma dele.
  • Outro caminho são escolas bilíngues, onde muitas aulas são integralmente ministradas no idioma trabalhado na instituição. Normalmente estas escolas custam bem mais caro que as regulares.
  • Algumas escolas oferecem o ensino de outros idiomas desde a educação infantil. Mais do que a fluência, o objetivo é despertar o interesse a exercitar a outra língua de forma lúdica. Outras escolas começam mais tarde, o que também é bastante válido.
  • Hoje em dia existem infinitas opções de cursos de idiomas, muitas bastante acessíveis.
  • A internet oferece centenas de opções também. Desde cursos online até desenhos em outra língua a um clique de distância da criança. Que tal colocar Masha e o Urso no original russo ou Peppa Pig em italiano? Tem tudo no youtube. E, às vezes, a criança nem se dá conta de que o filminho está em outra língua.
Atenção à essência!

Seja qual for sua escolha para colocar seus filhos em contato com outro idioma, uma coisa é certa: a criança deve sentir-se à vontade. Não vale a pena forçar a barra para que a criança aprenda um novo idioma se isso for aborrecê-la. Principalmente porque isso pode ser feito de uma forma leve e divertida, inserida no contexto em que a criança vive. É importante deixar a criança ser criança, apresentando a ela o tanto de coisas legais e diferentes que o mundo tem a oferecer.

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