A invisibilidade da inclusão

Photo credit: Luciano Joaquim via VisualHunt.com / CC BY-NC-SA

Desde o inicio deste ano está em vigor a Lei Brasileira de Inclusão (Lei 13.146/2015), que garante a todos indistintamente o acesso à educação.

 

Em algumas escolas ditas inclusivas a convivência já existe há algum tempo, mas será que isso é o suficiente para chamarmos de “inclusão”?

 

A verdade é que essas crianças e suas famílias vivem dilemas muito próprios e sofrem em silêncio. Ao contrário das demais mães, que reclamam entre si o tempo todo de cansaço, de estarem sobrecarregadas e de qualquer outra coisa, as dores e dramas dessa gente são, na maioria das vezes, invisíveis às outras famílias.

 

Você acha que sofre para fazer seu filho terminar o dever de casa? Imagine se ele nem conseguisse começar, pois o dever não está adequado às capacidades do seu filho. E ele tivesse que fazer, mesmo assim. E imagine isso acontecer todo-santo-dia.

 

Mediadoras, psicólogos, psiquiatras, uma equipe multidisciplinar que as famílias têm que orquestrar. Isso quando possuem a sorte de terem condições financeiras para isso. A maioria, na verdade, mal tem condições de entender as reais potencialidades dos seus filhos para ajudá-los a se desenvolver em sua plenitude.

 

É disso que estamos falando. Dilemas e dores diários, que se somam, se acumulam e que as demais famílias nem se dão conta.

 

Essa invisibilidade, aliada à dificuldade que as famílias encontram em serem aceitas em outros colégios apesar da lei, pode dar a entender, para uma escola, que ela tem o controle desse grupo minoritário. Afinal, quem mais se importa?

 

Mas isso nem sempre é verdade. Recentemente, as turmas de quinto ano de um colégio se juntaram num abaixo-assinado para a coordenação quando souberam que os alunos de inclusão estavam ameaçados de serem cortados de uma viagem da escola. Uma das crianças disse à mãe: não seria justo deixar ninguém para trás.

 

À atitude tocante das crianças de dez anos somou-se o posicionamento de várias famílias de séries distintas, que também enviaram seus abaixo-assinados.

 

A escola se assustou e recuou da decisão. Também anunciou que conversaria com as famílias nas reuniões de pais sobre como tem tratado o tema da inclusão.

 

A inclusão não pode – e não deve – ser assunto de um reduto. Deve ser pauta de toda a comunidade escolar, de todas as famílias. Porque, se a criança de inclusão ganha com o convívio da sociedade, as outras crianças ganham muito mais. Elas aprendem a ser empáticas e tolerantes. A diferença soma; é dela que surge a inovação, que move o mundo. Crianças empáticas se tornarão adultos tolerantes e consequentemente terão mais chance de serem felizes.

 

Precisamos colocar uma lupa na inclusão, trazer o tema para a mesa, tirar essas famílias da invisibilidade. Ninguém é invisível. E não vamos deixar ninguém para trás.

 

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A pele que habito: o racismo em cada um de nós

(40 Posts)

2 thoughts on “A invisibilidade da inclusão

  1. Kátia Filippi Pecoraro

    Isso me recorda uma ex-aluninha que tive, ainda na época do magistério (Piracicaba), antes da faculdade. Era a Dulce. Ela tinha muitas limitações motoras (vários aparelhos) e, por isso, mais lenta em tudo. Com cuidado e muita atenção ao lado, fazia o que os outros faziam, mas depois. E a classe, na época, todos com 8 anos, nem sempre a esperava ou a acolhia. Certa vez, andando comigo no recreio e dividindo o lanche (estávamos de mãos dadas), ela disse: “- Tia, você me ensina TUDO?” (era eu, estagiária, que a professora deixava acompanhando os mais lentos). E eu: ” – Como assim, Dulce? O que é ‘tudo’?”. Ela, apontando o recreio: ” – A ser assim, igual a todas as outras crianças, fazer o que elas fazem…!”. Eu dei um abraço apertado e disse que faria tudo o que pudesse. Dois meses depois a trocaram para uma escola especializada… Jamais esqueci.

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