Quem educa o meu filho sou eu

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Photo via VisualHunt

Outro dia levei meu filho ao dermatologista. Ele tem, com alguma frequência, uma doença de pele bem chata e mais popular do que a gente pensa, chamada molusco.

Não há tratamento eficaz conhecido. Os bichos crescem e fica o aspecto de uma verruga ou acne. As erupções às vezes coçam, se multiplicam e se espalham pelo corpo. O jeito é extrai-los no médico, num processo manual e doloroso. Trata-de uma espécie de raspagem, um a um.

Ele estava com o corpo cheio delas, algumas bem grandes. Ele chegou a se espantar quando se virou na maca e viu a quantidade de sangue que tinha saído das extrações. Ainda assim e apesar da dor, seu comportamento foi irrepreensível.

Soltava uns gemidos e às vezes se encolhia, mas deixou a médica tirar todos os 36 bichos. 36!

Eu sentei no degrau da cama, dei a mão para ele e o acariciei. Conversei e olhei fixamente nos olhos dele o tempo todo.

O comportamento dele foi exemplar. A médica mesmo admitiu que nunca tinha visto criança tão disciplinada e comportada. Ela acrescentou que não seria possível ter feito todo o procedimento se ele não tivesse se comportado tão bem.

Terminado o procedimento eu o ajudei a se vestir. Eu o beijei e elogiei a sua coragem e comportamento.

Tudo ia tão bem, até que na saída a medica se dirige para o meu filho. Ela solta: “Você se comportou muito bem, pode pedir o que quiser pra sua mãe que ela vai te dar. Sorvete, chocolate, o que quiser!” Não satisfeita, ainda completou: “E ela nem vai poder dizer que não, porque eu estou falando com você na frente dela e ela agora vai ter que cumprir.”

Oi?! Em que momento a médica virou a mãe e a mãe virou a médica? Em que momento eu a autorizei a definir os parâmetros de educação do meu filho?

 

Cada um educa do seu jeito

Eu já eduquei na base da recompensa, mas não vi resultados. Depois de tentativas fracassadas comecei a ler uma corrente contrária e abandonei essa tática. Eu evito “remunerar” meus filhos por bom comportamento. O prêmio, já há algum tempo lá em casa, costuma ser o chamado reforço positivo – nossa admiração e o reconhecimento do mérito – e tem funcionado bem assim. Mas não pretendo aqui questionar se a educação por recompensa é válida ou não. Cada um tem a sua forma. O ponto é: respeitar a linha de educação da família e a autoridade dos pais.

Quando um estranho ou um intruso qualquer – pode ser vizinho, avó, tio, tia, professor, dentista ou o que for – se apropria da minha autoridade para estabelecer um comportamento que essa pessoa acha válido, pode ter boas intenções. Mas está fazendo um mal maior do que pensa. Pode estabelecer na mente do meu filho um padrão de comportamento que depois eu terei muito mais trabalho para desconstruir.

 

Mas cada um deve respeitar o jeito do outro

Nesse caso específico eu estava com muita pena dele. Depois da médica lhe dar a ideia do doce ele ficou tão empolgado (claro, pois não está acostumado com isso) que não tive coragem de lhe negar. Cedi. Pra mim foram duas violações numa tacada só. Primeira, dar uma recompensa desnecessária. Segunda, esta ser um doce, no meio da semana, contrariando outra regra da nossa casa.

Se você se relaciona com outras crianças, independente do seu papel na família ou do contexto, lembre que os únicos autorizados a definir recompensas, punições ou estabelecer parâmetros de comportamento são a mãe e o pai, os responsáveis pela criança. Por melhor que seja a sua intenção, pense duas vezes antes de se dirigir a uma criança definindo questões que são responsabilidade dos pais dela. Sem perceber, você pode estar mais atrapalhando que ajudando. Se estiver em dúvida, dirija-se ao pai ou à mãe antes, sem que a criança perceba. Os pais agradecem.

 

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