“Seja homem” e outras coisas que dizemos aos nossos meninos

seja homem
Photo credit: Tjook via Visual Hunt / CC BY-ND

“Seja homem”; “Homem não chora”, “Pare de agir como uma menina”…quantas vezes não ouvimos ou dizemos coisas como essas para os meninos?

Aparentemente há uma diferença na maneira como a sociedade vê a criação das crianças e essa diferença é fundamentada basicamente no gênero – masculino ou feminino.

Quando engravidei a primeira vez e soube que era menina ouvi muitas frases do tipo: “Nossa, menina dá trabalho!” ou “Menino é muito mais fácil de educar!”

À medida que minha filha crescia, vi que não era bem assim. Presenciei inúmeras cenas que me mostraram que, na verdade, existe uma grande pressão na educação dos garotos, uma expectativa desde a mais tenra infância.

A experiência que mais me marcou foi quando dois meninos de três anos, na euforia da brincadeira, se deram um selinho. Isso pode acontecer em crianças pequenas, que não entendem os códigos sociais (beijo na boca é para relações íntimas) e muito menos têm noção de sexualidade. Mas a reação do pai de um dos garotos, que estava conosco, foi de uma truculência que me chocou. Ele não chegou a bater no garoto, mas foi por pouco. Ele não é um mau pai, muito pelo contrário. É um pai presente, afetuoso. Mas naquele momento ele simplesmente reproduziu uma programação que está em todos nós desde cedo e que é reforçada pela mídia, na escola, nas casas: o pânico da feminilidade nos garotos.

 

O que vi por aí

O documentário “The Mask You Live In” fala sobre a maneira como educamos os meninos. Se você tem filhos ou sobrinhos, por favor veja esse filme (está na Netflix). Ele aborda questões que normalmente não refletimos sobre a educação dos garotos. O modo como os tratamos e como lidamos com as emoções deles tem consequências para toda a vida. Você pode ler aqui o relato emocionante de um homem que viu esse filme e se lembrou da própria infância.

Um contraponto que faço a esse filme é que há muitos exemplos extremos. Entendo que o objetivo seja mostrar, no limite, o que pode acontecer, mas fica parecendo uma realidade distante. Nesse sentido, o livro de Rosalind Wiseman, Meninas Malvadas, é mais próximo, pois mostra os impactos da educação dos garotos que vivem em famílias comuns, bem estruturadas. A partir dos seus estudos ela diz que a base da educação dos garotos é a homofobia. Os meninos crescem tendo que provar o que não são – femininos. Assim, tudo o que pode existir de sensível, frágil ou meramente humano é desconsiderado como masculino. Junte-se a isso a lei suprema entre os garotos, “a diversão em primeiro lugar” e teremos então uma situação em que sentimentos como insegurança, tristeza e medo não cabem no código masculino. Isso os impede de conversar sobre questões que os afligem.

Os garotos andam em bandos, mas crescem isolados dentro de si mesmos, pois não podem contar com os outros garotos para as questões mais importantes. A única emoção permitida ao homem é a raiva, o que naturalmente leva à violência entre os homens e para com as mulheres.

Os meninos sentem medo e são muito mais sozinhos do que a gente pensa.

 

O resultado disso tudo

De volta aos discursos que ouvia quando estava grávida: hoje, com um casal de filhos, posso dizer que na minha experiência criar meninos não parece mais fácil; acredito que nós é que simplificamos o processo. Com o tempo, o isolamento e a repressão das emoções, o resultado está ai: em relação às mulheres, os homens cometem muito mais crimes, morrem mais cedo, possuem índices de suicídio mais altos, são mais dependentes de álcool e drogas. Eles não sabem o que fazer com as suas emoções, não se sentem autorizados a expressá-las e isso tudo desagua em vícios e raiva que repercute nos índices de violência.

Os homens sofrem. Calados. E esse sofrimento começa muito, muito cedo. Precisamos libertar os homens dessa educação que os faz beberem, se drogarem, violentarem os outros e quererem se matar. Ser homem é muito mais que mostrar força e poder. Ser homem é ser humano. É também sentir, se emocionar, cuidar, importar-se com os outros.

 

Tem saída?

No filme, uma das saídas apontadas é que meninos que crescem com pais presentes e que possuem forte vínculo afetivo com suas mães conseguem lidar melhor com as suas emoções, tornando-se adultos mais felizes.

Vamos amar nossos meninos como eles são! Que eles cresçam sem medo de serem complexos, sensíveis – e sim, isso é ser homem, também.

 

 

 

Leia também: Como criamos meninas e meninos

 

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